Penha Jacobina

Projeto Andrews 90 anos

Entrevista com Penha Jacobina

Rio de Janeiro, 3 de julho de 2007

Entrevistadora Regina Hippolito

 

Onde e quando você nasceu?

 

PJ: Eu nasci em Minas Gerais na fronteira com o Espírito Santo. Com nove anos eu vim para o Rio estudar.

 

Onde você fez seus primeiros estudos?

 

PJ: No colégio público no interior do Espírito Santo. Eu vim para o Rio fazer a quinta série. Meus pais que eram católicos e queriam me botar no internato do Colégio Sacré-Cœur de Marie. Isso foi em 1956, eu tinha nove para 10 anos. Eu fiz lá a quinta série, mas fiquei pouco tempo porque não me coadunei com a disciplina. Fui então para o internato do Colégio Imaculada da Conceição e terminei o Ginásio. Como eu queria entrar para uma faculdade pública, porque meus pais não tinham condição de pagar, resolvi fazer uma coisa que era contra a filosofia deles de colégio católico. Eu fui para o Andrews fazer o Científico.

 

Como foi o seu curso Científico no Andrews?

 

PJ: Tenho muitas saudades de alguns professores que foram marcantes para mim. Um deles foi o professor Ramalho Novo, de Matemática, que era uma figura maravilhosa. Outra figura muito bacana também foi o professor Conti, de Química. Eu só fiz Química por causa do professor do primeiro ano Cientifico.

 

O Colégio influenciou a escolha de sua profissão?

 

PJ: Eu fiquei na dúvida entre Química e Arquitetura. Naquele tempo, no Científico tinha a turma de Engenharia e de Medicina, e eu fui para a de Engenharia. Nós colocamos na sala do segundo andar, sala 17, uma placa quando nos formamos, em 1952, para o professor Ramalho Novo.

 

Você se lembra de seus colegas?

 

PJ: Colocávamos muito apelido. Eu me lembro do Marcos, do Fifi, que tocava violino muito bem, da Hildete Farias, que depois foi minha colega na faculdade. Tinha a Fernanda, que também nadava. O Maurice Emanuel, que foi meu professor. Ele fez Engenharia Química e eu fiz Química na Faculdade Nacional de Filosofia. Quando fui complementar meu curso na Engenharia Química, ele já era professor de lá.

 

Como você decidiu entre Química e Arquitetura?

 

PJ: Naquele tempo o vestibular tinha poucas pessoas e o número de vagas era pequeno. No dia que fui fazer prova, tinha que fazer Desenho para Arquitetura e Matemática para Engenharia Química. Nós fazíamos uma prova e ficávamos esperando o resultado, todas as provas eram eliminatórias. As provas foram no Benjamin Constant. Eu tinha feito duas inscrições, e resolvi jogar cara ou coroa, caiu Química, entrei para fazer a prova de Matemática.

 

Fale um pouco dessa época que você cursou a Faculdade Nacional de Filosofia.

 

PJ: Entrei lá em 1953. Tive uma vida realmente de universitária, eu gostava de esporte, então fui logo para a FAE, que funcionava na Praia do Flamengo. Eu entrei para esse movimento de estudantes, fazia muito esporte, tinha muita facilidade. Eu também dava aula.

 

Quando você começou a dar aula?

 

PJ: Desde que eu estava no Andrews já dava aula na na Igreja da Glória à noite para ganhar dinheiro. Na faculdade eu comecei a dar aula particular e também no Colégio Juruena, onde dava aula de laboratório. Eu dou aula desde os 15 anos, tem 60 anos. Na faculdade também comecei a dar aula, me chamavam de tutora, dava aula para uma turma abaixo da minha.

 

Quando você terminou a faculdade?

 

PJ: Em 1956. Nessa época eu já trabalhava com o professor Perroni no Instituto Nacional de Tecnologia, em pesquisa. Eu dava aula e trabalhava como bolsista do CNPq. Depois de formada continuei na faculdade, fiz concurso, fui professora assistente, depois adjunta e me aposentei lá.

 

Qual foi o primeiro contato que você teve com o Colégio Andrews como profissional?

 

PJ: A professora Vera Maciel, que tinha sido minha professora de Química Orgânica, me chamou perguntando se eu queria trabalhar lá. Eu achava que não tinha experiência para enfrentar o Andrews, eu era muito garota, não tinha nem físico, pesava 48 quilos. Mas a Vera falou para eu ir fazer uma experiência.

 

Em que ano você entrou no Andrews?

 

PJ: Acho que no início dos anos 60. Trabalhei lá por mais de vinte anos.

 

Que turmas você pegou?

 

PJ: Turmas do primeiro ano Científico na Praia de Botafogo, que era o que eu gostava. Depois dei aula no terceiro ano Científico. Comecei dando aula no terceiro ano no cursinho que funcionava em Copacabana. Eu gosto mesmo é de dar aula no primeiro ano, porque é quando o aluno vai começar a estudar Química. Eu gosto de preparar, gosto de contar a história da Química porque acho que é fundamental para organizar o pensamento. Alguns colegas me criticavam dizendo que eu perdia tempo, eu respondia que ao contrário, eu ganhava tempo, porque quando conto a história, eu estou montando a cabeça do aluno. Eu tinha uma aluna, filha do professor Coutinho, de Matemática, que tinha cadernos lindos.  Eu só dava aula colorida, acho que isso chamava a atenção, e ela copiava colorido também. Ela me deu os cadernos para guardar e estão até hoje lá em casa. Eu tenho orgulho da matéria que dava.

 

Como foram seus primeiros anos de trabalho no Andrews?

 

PJ: Quase todos os professores que estavam lá tinham sido meus professores. Então, eu já entrei com certa cordialidade. Tinha até um professor, o Edgar Cabral de Menezes, que estava lá e tinha sido meu professor também na faculdade.

 

Quanto tempo você ficou dando aula no Andrews?

 

PJ: 27 anos.

 

Você pegou diferentes Direções no colégio, viu alguma diferença entre elas?

 

PJ: Tem uma pessoa que é hors concurs pela delicadeza, pelo manejo, pelo traquejo, por tudo, eu adorava o professor Carlos Flexa Ribeiro. Às vezes acabava a aula e eu passava na sala dele para conversar, ele era uma pessoa brilhante. Depois peguei o Edgar Azevedo, que dava o máximo de força para a gente. Eu era muito exigente, eu dizia: “vou dar aula extra hoje da uma às três no anfiteatro, quem quiser vem”. Eu dava aula de graça porque eu queria que os alunos fossem muito bons. Quando eu chegava lá o auditório já estava a minha disposição. Depois veio o Edgar Flexa, que é uma pessoa muito parecida com o pai dele. Até hoje eu brinco que ele escapou por pouco de ser meu aluno, mas os outros foram.

 

Em que ano você saiu do Andrews?

 

PJ: Acho que saí no final dos anos 80. Eu fiquei muitos anos, era paraninfa quase todos os anos. Eu brincava muito, acho que durante a aula tem que ter descontração. O Miguel Falabella, quando foi meu aluno, durante o recreio me imitava, eles eram artistas, eles faziam malas com roupa, com tudo para poder nos imitar. A Maria Padilha também foi nossa aluna, a Cristiane Torloni. Agora, quando o aluno dizia não quero brincadeira eu nunca mais brincava.

 

Nessa época você já dava aula para o terceiro ano?

 

PJ: Desde que começou o cursinho em Copacabana eu já dava aula para o terceiro ano. Era raro mulher dar aula em cursinho. Dava também aula no estado, na faculdade. Com isso, comprei uma moto. Tinha que sair do Andrews e chegar na UFRJ em 15 minutos só de moto eu conseguia.

 

E de seus alunos, o que você se lembra?

 

PJ: Bernardinho foi nosso aluno. Há muito tempo ele deu uma entrevista dizendo que eu devia ter sido artista em vez de ser professora de Química, porque quando eu andava na sala, gesticulava, segurava na porta para mostrar o que é um elétron, me pendurava e rodava na porta. Tem vários médicos que foram meus ex-alunos. Há um tempo eu estava de moto e parou um carro buzinando no meu lado, e ele falou: “Penha, lembra de mim, fui seu aluno, sou médico psiquiatra”.

 

Você destacaria algum elemento na orientação pedagógica do Andrews diferente de outros colégios?

 

PJ: Não sei, sou muito linear, o modo como trabalhava era igual em todos os colégios. Eu nasci para ser professora, estou com essa idade toda e ainda estou dando aula.

 

Hoje em dia você dá aula onde?

 

PJ: No Centro do Estado do Rio de Janeiro, na divulgação científica, nosso projeto se chama Praça da Ciência Itinerante. Trabalhei também na educação continuada do professor.

 

De uns tempos para cá muitas escolas fecharam. O que você acha que o Andrews tem que resistiu ao tempo e vai fazer 90 anos em 2008?

 

PJ: A primeira coisa que acho é que ele resistiu porque foi um colégio de elite, foi o melhor do Rio dos colégios leigos, comparativamente com colégios católicos. O Andrews sempre teve professores muito bons, quando eu cheguei para ter aula era só gente de universidade. Além disso tem a questão de o colégio ser muito agregador com os pais e os filhos, acho muito importantes essas reuniões de pais com os filhos, festa de São João; os pais se sentem bem porque estão vendo que os filhos estão sendo bem cuidados.

 

Qual foi a importância do Andrews em sua vida?

 

PJ: Ele me firmou como profissional, quem trabalhava no Andrews tinha um nome. Além disso, eu tinha colegas maravilhosos e eles estão no meu coração até hoje. Eu encontro sempre com a maioria deles. O Carlos Otávio, por exemplo, sempre encontrava até que ele morreu há dois anos; a Ester, o Loureiro, o Maurício Silva Santos, o Ivan, o Paulo Eduardo, o Fernando, de Química, o Iber Reis, o José Paulo, de Geografia. Todo ano fazemos duas reuniões do grupo. Estamos sempre unidos, a amizade está sempre dentro de nós. Eu perdi de vista o Cabral de Menezes porque ele mora longe.

 

Você quer acrescentar alguma coisa?

 

PJ: Nas vésperas do vestibular nós vínhamos para o Andrews e ficávamos à disposição do aluno o dia inteiro, nós dávamos o sangue mesmo. Era um grupo muito bom mesmo, nós tínhamos garra. O Andrews me dava muita saudade, tinha aquelas festas de formatura que eram muito gozadas, brincávamos com os pais, com os alunos. Eu achava muito importantes as reuniões que o Andrews dava, dia 15 de outubro, o dia do professor, no final do ano a festa de Natal.

 

Muito obrigada pelo seu depoimento.

 


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