Regina Andrews

Projeto Andrews 90 anos

Rio de Janeiro, 16 de maio de 2007

Entrevista com Regina Andrews/Orientadora Educacional

Entrevistadora Regina Hippolito

 

Vamos começar falando um pouco sobre a história da sua família, a Mrs. Andrews. Como foi o começo do Curso Andrews?

 

RA: Na verdade, ela começou como um curso para ensinar Inglês para filhos de amigos. Era bem doméstico. Aos poucos, as pessoas foram se interessando. O que começou como uma brincadeira de quintal (parece que eram três alunos) foi crescendo e ela sentiu necessidade de chamar uma pessoa para ajudá-la. Acho que não houve um objetivo primeiro de formar uma escola. Foi uma ajuda a pequenos grupos que aos poucos foi se transformando, crescendo e dando certo. Logo ela chamou a dona Alice para trabalhar com ela. Como ela era inglesa e descendente de ingleses, tinha muito contato com o clube inglês de Niterói.

 

O curso funcionava na casa dela?

 

RA: Não tenho ideia. Me parece que logo a dona Alice conseguiu um prédio na Praia de Botafogo. No começo era muito familiar. Eu lembro que minha avó, que era nora da Mrs. Andrews, e o irmão dela foram  professores lá. Aos poucos foi dando certo e foram chamando novas pessoas. Da parte que me lembro, ela já não era mais diretora da escola, nem a dona Alice. Elas iam muito visitar. Era então um dia de festa no colégio. Ela fundou a escola com mais de 50 anos. Logo ela já estava idosa, já não podia segurar mais, e passou a parte dela para a dona Alice.

 

Qual o seu grau de parentesco com ela?

 

RA: Eu sou bisneta dela. Meu avô, por parte de mãe, era filho dela.

 

Você sempre estudou no Andrews?

 

RA: A minha vida inteira. A não ser quando eu era bem pequenininha e morava em Natal, onde nasci, porque meu pai era da aeronáutica. Quando voltamos para o Rio entrei para o Andrews e estudei lá até o último ano do Ginásio. Depois fui fazer o curso normal na Escola Azevedo Amaral, onde era o Colégio de Aplicação. Eu fui fazer o normal porque tinha medo da madame Jacobina, resolvi nem fazer o Clássico nem o Científico. Depois fiz pedagogia e quando terminei a Guilhermina Sette me deu muita força para trabalhar no Andrews. Então, o Edgar Azevedo, que era Diretor do colégio, me chamou para ser orientadora educacional e lá fiquei 30 anos.

 

Como foi seu curso Primário no Andrews? De quais professores você se lembra?

 

RA: Foi inesquecível. O Colégio Andrews é inesquecível e já reparei que isso acontece na vida de todo mundo que passou por lá. Da época do Primário eu me lembro perfeitamente das professoras. Tinha a de Inglês, Miss Mary, a professora de Francês, Mme.Margot. Comecei a estudar Francês no segundo ano Primário e me lembro de dona Olga, que foi minha professora por dois anos. Aliás, foi a única vez que a minha bisavó interferiu em questão de professores. A dona Olga foi minha professora no terceiro ano primário e ela pediu para que ela  seguisse a turma da bisneta na quarta série. Eu adorei porque ela era uma professora inesquecível e maravilhosa, como todos os professores que tive. Eu tive a sorte de ser da primeira turma do Ginásio experimental do Colégio Andrews. Foi uma experiência fantástica, diferente, com professores fantásticos, de quem me lembro até hoje e que me deram uma base excelente. Isso me marcou muito e fez parte da minha formação emocional, social, intelectual. O Colégio Andrews foi tudo para mim. É inesquecível. O grande mérito também do colégio é fazer amizades eternas. Até hoje eu tenho grandes amigos, embora não os veja sempre, que foram colegas meus do primário. Isso vale mais do que tudo.

 

O que você se lembra dos professores do Ginásio?

 

RA: Eles eram maravilhosos. Eu me lembro de professores fantásticos; a Regina Braga de Português. A grande vantagem desse esquema que eu fiz foi que os professores seguiam as turmas durante o Ginásio inteiro. Então o mesmo professor que tive no primeiro ano, tive até o quarto.

 

Qual era a diferença desse Ginásio experimental para um Ginásio tradicional?

 

RA: Era totalmente diferente. Por exemplo, no primeiro ano ginasial não se tinha aquela quantidade de matérias que tinha o curso normal. Nós tínhamos cinco matérias: Português, Matemática, Inglês, Francês e Ciência. No segundo ano acrescia História, no terceiro Geografia. Mas tinham outras matérias paralelas que eram fantásticas: Artes Plásticas, História da Arte, Iniciação Científica (ensinava como fazer uma lâmpada, como fazer a conexão, consertar ferro elétrico). Eram temas que aguçavam a curiosidade dos alunos. Nós tínhamos um número muito maior de aulas de Português e Matemática do que o Ginásio comum. Com isso, nosso conhecimento era mais aprofundado. Tive o Léo como professor de Matemática, eu amava Matemática; o professor Ardity de Francês, que me deu uma base fantástica (descobri isso anos depois quando fui para a França e consegui entender e falar tudo). Tive o Clóvis Dottori, de Geografia, fantástico; Werneck, de História era bárbaro; professor Maia, de Ciências. Era muito maravilhoso. Foi inesquecível. Tudo que nós aprendemos ali foi para a vida toda. Foi genial.

 

Você acabou o Ginásio e foi fazer a escola normal?

 

RA: Foi uma desgraça. Eu pude comparar o que foi minha vida no Andrews e na Escola Normal. Eu parei no tempo por três anos. E depois fui fazer Pedagogia.

 

Onde você fez pedagogia?

 

RA: Na PUC. Terminei em 1969 e no ano seguinte já estava trabalhando no Andrews.

 

Você entrou no Andrews em 1970 como Orientadora Educacional? De que série?

 

RA: Entrei em 1970 como Orientadora Educacional do Primário até o Admissão. Eram poucas turmas, poucas crianças. Eu trabalhava sozinha, apanhei muito. Dois anos depois entrou a Liane Espolidoro Gonzalez, que foi minha colega de turma na PUC. O colégio foi crescendo e se dividiu em dois turnos. Eu fui me especializando nos pequenininhos. Fiquei com os pequenininhos durante 30 anos. Só no final, quando começou o Horário  Integral, o Edgar me convidou para ser coordenadora do Horário Integral. Larguei a Orientação Educacional e fui fazer essa nova experiência. Já tinha inclusive me aposentado. Foi um novo desafio e foi fantástico.

 

Quando começou o Horário Integral?

 

RA: Em 1995, na Visconde de Silva. Era só do Jardim à quarta série. Depois passou a incluir a quinta série. Foi outra experiência maravilhosa que o colégio fez. Aliás, o colégio está sempre experimentando novidades, está sempre procurando o melhor, e trabalhar nesse sistema de procurar o melhor sempre foi muito bom.

 

Você destacaria alguma coisa da orientação pedagógica ou educacional do colégio que fosse diferente dos outros colégios, ou se ele tem uma característica própria, já que você trabalhou o tempo todo com a orientação educacional.

 

RA: O colégio sempre procurou estar com os pais muito perto, ouvi-los muito, ser ouvido, patrocinar atividades para que os pais comparecessem. Quando o colégio era menor, os pais tinham livre acesso ao pátio. Isso facilitava muito essa troca entre família e colégio. Era informal, mas ao mesmo tempo mostrava o que estava correndo bem ou não; quando sentíamos que algo não estava correndo muito bem, nós tentávamos trazer esses pais mais para perto para descobrir o que não estava satisfazendo a eles e tentar melhorar. A orientação educacional e a pedagógica procuravam muito estar presentes nesses momentos de entrada e saída de alunos, de troca de turno, participando daquela conversa de pátio.

 

Por que você escolheu fazer Pedagogia, o colégio influenciou a escolha de sua profissão?

 

RA: Na verdade, quem me influenciou foi a minha própria bisavó. Eu ficava fascinada com a história de ela ter fundado um colégio como o Andrews, que sempre foi um colégio de nome. Eu achava aquilo tão interessante que eu queria fazer algo ligado à Educação. Ao mesmo tempo, eu tinha terror de ser professora, não gostava de dar aula, ficava nervosa. No Curso Normal, fui testar isso e vi que dar aula não era a minha vocação. Mas queria de alguma forma trabalhar com Educação. Naquela época, eu não tinha ideia do que era pedagogia. Fui parar lá por mero acaso. Pensei em fazer Psicologia Infantil e um amigo me falou para fazer vestibular para Pedagogia, já que eu queria trabalhar com Educação. Eu fui descobrir que era realmente o que eu queria lá dentro da faculdade. Era trabalhar com Educação, com orientação educacional, lidar com os pais, lidar com as crianças. Eu fui cair nessa profissão por acaso e foi maravilhoso porque era tudo o que eu queria fazer na vida.

 

Mas muito por influência de sua bisavó, não?

 

RA: Muito. Eu queria algo que me ligasse ao colégio. Na verdade, eu não queria Educação fora do Colégio Andrews. Minha meta era o Colégio Andrews e como chegar lá. Era algo de sangue, não tinha jeito. E pedagogia me levou para o caminho que eu queria dentro do Colégio Andrews.

 

Você nunca trabalhou na Praia de Botafogo?

 

RA: Não. Só na época de faculdade, durante as férias, eu trabalhei lá para ganhar um dinheirinho. A Guilhermina Sette me dava muito apoio e eu trabalhava na seção de notas, tirando médias. Fui conhecendo as pessoas, sabendo quem fazia o que. Não entrei na Visconde de Silva totalmente cega, eu já sabia um pouco o que se fazia.

 

Qual era a sua ligação com a Guilhermina?

 

RA: A Guilhermina foi colega de turma de meu pai. Foi muito amiga. E nós tivemos uma afinidade muito grande na época em que fui aluna. Ela sempre me incentivava muito. Falava que eu ia ser a herdeira dela no colégio. Ela me deu total apoio e muita ajuda no começo. Naquela época não era como hoje, que tem estágio, e você entra já com algum conhecimento prático no trabalho. Era pura teoria; eu tinha muitas matérias de Filosofia, mas tive só seis meses de aula teórica de orientação educacional. Foi muita “cara de pau” minha e muita confiança que eles depositaram em mim, o Edgar Azevedo e o Edgar Flexa. O começo foi muito difícil. Eu era muito garota, tinha 23 anos. Na verdade, eu tive muita ajuda deles e muito incentivo, mas eles também me cobravam. Não existia especialização. Hoje se faz Pedagogia com especialização em orientação educacional. Eu saí pedagoga e só, e tinha que me virar. Foi difícil.

 

Em que ano você nasceu?

 

RA: Em 1947.

 

Você pegou várias Direções do colégio, me fale um pouco sobre isso.

 

RA: Quando eu entrei, era Ana Belisans, que ficou pouco tempo. Depois entrou a Maria Alice Simonsen, também por pouco tempo. Veio a Marisa Fiúza de Castro, que ficou bem mais tempo. Era uma pessoa dura, mas muito competente. E entrou a Adélia Carregal e eu fiquei a maior parte do tempo com ela até me aposentar; ela continuou ainda lá. A época da Adélia foi muito boa. Ela é uma pessoa muito competente e muito humana, justa. Eu gostava dela porque ela fazia tudo funcionar. Depois veio o Pedro. Vi o Pedro começando a atuar na Visconde de Silva, querendo inovar, trabalhando muito. E acho que está funcionando muito bem. Nessa época eu era do Integral e não tinha muito contato na parte pedagógica. Eu fazia só a coordenação, não influía em nada na parte pedagógica e educacional. Foi uma experiência muito boa o Integral, espero que esteja dando certo até hoje. Da parte de coordenadores convivi com gente fantástica, como o Jorge Miguel e Lindita. Eu gostava de todos. Eu sempre me dei bem no colégio porque aquilo era a extensão da minha casa. Como o Edgar falou: “você foi casada mais tempo com o Colégio Andrews do que com seu marido”. Com certeza fui. Nos últimos anos eu trabalhava de sete da manhã às oito horas da noite direto. Vivia lá dentro. Eu me dava muito bem com todo mundo. Aquilo era um paraíso para mim. A decisão de parar também foi um paraíso. Foi difícil, mas foi na hora certa. Acho que temos que saber a hora exata. Eu achei que não era mais para continuar. Foi uma decisão minha. Eu cansei, resolvi mudar até de país. Fui morar nos Estados Unidos. Achei que já era tempo. Chega! Vou deixar o mundo para os jovens.

 

Seus filhos estudaram no Andrews?

 

RA: Graças a Deus, estudaram a vida inteira, do primeiro Jardim ao último ano, e estão super bem na vida. A Tatiana formou-se em administração de empresas. Hoje em dia ela é gerente de marketing da Nestlé de sorvete aqui no Rio; está quase há 10 anos na empresa e ganha muito bem. A Gabriela passou no vestibular de medicina na primeira vez que tentou. É médica e está muito satisfeita. E eu também com elas. Eu devo tudo isso ao Colégio Andrews, que foi só o que elas tiveram a vida inteira. Falam Inglês, se viram no Francês, tem um grande conhecimento intelectual.

 

Você sentiu que havia alguma diferente da sua época de colégio para a das meninas?

 

RA: Não existiu. Toda sociedade evolui. Foi bom no meu tempo como foi bom no tempo delas. A diferença que houve foi a normal de geração. De ensino, era tão bom quanto. Não tive a menor dificuldade quando fui fazer o Curso Normal. Nem estudei nada, passei direto. Quando fiz vestibular, minha base toda era do Andrews e entrei logo.

 

De uns tempos para cá muitas escolas fecharam, o que você acha que o Andrews tem que resistiu ao tempo e o colégio vai fazer 90 anos em 2008?

 

RA: Acho que o que o mantém é a qualidade. Ele procura sempre se atualizar. Está sempre procurando o que há de mais novo em termos de educação, sempre foi assim. Tanto é que eu fiz o Ginásio experimental, porque existia essa novidade. Era uma novidade muito pensada, muito trabalhada. Isso se traduz em qualidade. Diminuiu o número de alunos, mas para manter a qualidade. Acho que isso é importante. O Colégio Andrews não é um colégio da moda. Ele sempre manteve um padrão de qualidade e acho é o que segura ele.

 

Você sabe quando tempo durou o Ginásio experimental?            

 

RA: Acho que durou de 1959 até 1962.


O colégio oferecia o Ginásio experimental e o tradicional? Você tinha opção de escolher?

 

RA: Uma turma foi convidada para a experiência. Os pais aceitavam ou não. Normalmente eram filhos de professores, diretores, que aceitavam. Depois mudou tudo na lei e acabou.

 

Mas o colégio mantinha um Ginásio tradicional?

 

RA: Mantinha. Só tinha uma turma de experimental por série. Quando eu saí, eu fiquei sem saber. Não sei se foi só a minha turma que seguiu, ou se eles continuaram com a experiência com turmas que vieram depois.

 

No curso tradicional tinha Latim e no experimental não?

 

RA: Não, tinha Francês e Inglês, não tinha Latim. O currículo normal tinha muitas matérias, não sei como conseguiam dar conta. Acho que o objetivo era diminuir o número de matérias e aumentar a carga horária. Com isso se tinha um aprofundamento maior das matérias. No ano seguinte acrescentava outra matéria, com uma carga maior. E aquilo que se fazia em dois anos se condensava num ano só. E aumentava a carga nas matérias de peso maior que eram Português e Matemática. Com isso ficamos com uma base muito sólida. Não sei porque não deu certo, mas era muito bom.

 

Você sabe se outros colégios do Rio de Janeiro tentaram esse método?

 

RA: Não sei, mas acho que o Andrews foi pioneiro.

 

Você mantém contato com seus amigos do Andrews?

 

RA: Mantenho até hoje. Mesmo não tendo esse contato frequente, quando nos encontramos é uma festa! Quero que chegue logo esses 90 anos porque é uma oportunidade de todos se reverem. A minha neta mais velha está estudando numa creche perto de casa e ela foi saber que a avó da amiguinha dela foi minha amiga de segundo ano Primário. Colher isso duas gerações depois  é muito engraçado. Isso o Colégio Andrews sempre proporcionou. É algo que vejo em todas as gerações. As pessoas se encontram até hoje.

 

Você acha que suas netas vão estudar no Andrews?

 

RA: Elas são muito pequenas. Não sei, porque o projeto de vida das minhas filhas é bem diferente. O vínculo com o Colégio Andrews é muito grande, mas a vida delas muda muito. Se elas morassem por perto, evidentemente poriam no Andrews. Acho que elas têm grandes recordações e grande amor pelo tempo em que passaram no colégio. E isso fica.

 

Você gostaria de acrescentar alguma coisa?

 

RA: Estou sempre torcendo para dar tudo certo, para manter o padrão. Sinto muito orgulho. É quase como um filho que a gente criou e foi criado por ele. Eu sempre quero saber boas notícias.

 

Muito obrigada pelo seu depoimento.

 


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