“O que queremos, o que podemos e o que fazemos com a nossa linguagem?”

Ao final de dois anos de pandemia, atravessamos, todos nós, momentos de perdas efragilidades. Nesse 2022, com a retomada das aulas exclusivamente presenciais, nosso propósito é, sobretudo, o de acolher os alunos e oferecer-lhes suporte e ambiente no qual possam amadurecer suas leituras de mundo e construir perspectivas de um futuro deesperança.

Mas além disso, percebemos que, diante da oscilação de tantos referenciais, o Colégio pode desempenhar um importante papel, oferecendo à sua comunidade um convite à reflexão,na busca do fortalecimento, da resiliência e da produção de sentidos - individual e coletivamente.

A cada ano, escolhemos um tema a ser desenvolvido ao longo do período letivo. Geralmente expresso sob a forma de uma pergunta, ele nos convoca a todos que participamdesse Projeto - alunos, famílias, professores e demais colaboradores , incluídas Equipe Pedagógica e Direção - a refletir sobre as múltiplas dimensões que constituem nossa subjetividade e a essência do Humano.

Cuidamos para que ele seja uma oportunidade de reavivar e dar concretude a alguns dos pressupostos e das intencionalidades do nosso Projeto Educativo.

Como toda ação educativa, o Tema sempre pressupõe um projeto de Ser Humano e de sociedade. Portanto, não é neutro: parte de uma determinada concepção da Condição Humana. Como se dá a emergência do Ser Humano, o que o constitui e o que possibilita o seu advento ou ocorrência.

O Projeto Educativo do Andrews se apoia em pressupostos bem circunscritos, que descrevem um Ser pluridimensional constituído por quatro diferentes dimensões que, articuladas umas às outras, possibilitam e conduzem ao humano.

Mais do que um simples organismo, o Ser Humano conta com um corpo atravessado pelo desejo e marcado pela subjetividade, que constitui a base somática de sua capacidade de aprender.

O Humano é um ser que só se constrói na relação com um outro. A interação social é fundamental para que a condição humana venha a ser plenamente atingida. O Ser Humano é produto do meio, composto por estruturas macro e microssociais: cultura, sociedade, país, família, escola... todas elas, permeadas pela Linguagem, em suas mais diversas formas e manifestações.

Diferente de outras espécies, o bebê humano vem ao mundo incompleto, inacabado. Sua sobrevivência depende de alguém que o acolha e que nele invista. No ritual cotidiano de amamentação, o olhar da mãe é fundante ao conferir ao filho a condição de Ser Humano.

Desde o início, portanto, é através da Linguagem que a Condição Humana pode emergir e tem possibilidade de se instalar em sua plenitude. O contexto cultural em que cada qual é recebido tem papel preponderante no desenho de sua subjetividade.

São a prematuridade e a incompletude do bebê que dotam o seu psiquismo dessa extraordinária plasticidade que caracteriza a espécie Humana. Nascemos como “esponjas”, imersos na Linguagem, prontos para absorvermos e nos fazermos moldar pelas influências do ambiente cultural que nos acolhe e, até certo ponto, determina. Isso ocorre desde osprimórdios do processo de hominização e acompanha a marcha da espécie desde a pré-história. Diferente das outras, o Ser Humano tem o seu “acabamento” torneado pela Linguagem e pelo ambiente cultural – e tecnológico – que o cerca.

A experiência recente vivida pela sociedade deixou claro o impacto das mudanças tecnológicas e midiáticas sobre todos os setores, e o quanto são elas que estão a pautar a nossa existência. No que se refere à Educação, alguns autores entendem que, desde o surgimento da Escola, na Antiga Grécia (Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles), e, posteriormente desde 1450, com a invenção da prensa por Gutenberg, somos agora contemporâneos de uma terceira Revolução Educacional, marcada pelo advento da Internet, das plataformas e dos algoritmos.

O Conhecimento flui, ao alcance de todos. O processo de descentralização destronou o lugar um dia ocupado pela Igreja e pelos governos, que já não controlam o que se publica e o que se lê. Se no passado o escritor, autor de um texto, ocupava um lugar mais determinante em relação ao leitor, fruidor passivo da mensagem, hoje o hipertexto e a possibilidade deinteração tornam essa relação mais horizontal, conferindo ao leitor atual uma maior participação.

Mas nesse mundo novo nem tudo é admirável. A liberdade de opinião e as disputas de narrativas parecem ter degenerado em “pós-verdade” e fake news, que arriscam reescrever ou mesmo apagar o passado que nos trouxe até aqui, emulando perante as plateias dos novos leitores uma leitura de mundo muito distorcida.

Desde os primórdios, a tarefa de educar envolveu a sistemática transmissão de um determinado legado cultural. Mas, no atual contexto, somos obrigados a reconhecer que tanto a Família como a Escola perderam o pleno controle que um dia tiveram acerca da “grade de leitura” que seria apresentada àqueles que pretendemos educar.

Cada vez mais, as novas gerações crescem lendo o mundo através das redes sociais e dos algoritmos de seus celulares. Arriscam consolidar entendimento de mundo pautado porlógicas e critérios outros, alheios à nossa intencionalidade. Educar hoje é desafio que requer humildade e grandeza, necessárias para partir desse reconhecimento e diagnóstico de nossa limitação. Mesmo ainda crianças, os atuais alunos já chegam à escola trazendo percepções e impressões que lhes são incutidas pelas mídias.

Diante disso, cabe à escola e à família mapear e partir dessa percepção para fazer com que crianças e jovens possam transcender o senso comum e avançar na formulação de diagnósticos mais consistentes. Em nossa ação cotidiana, ao mobilizarmos diferentes linguagens, contribuímos para o desenvolvimento de critérios mais robustos para uma leiturade mundo mais enriquecida e autoral.

Por outro lado, sabemos que a existência dessa geração irá ocorrer em meio à uma profunda e intensa mudança de era. Devemos levá-la a desenvolver e dominar competências que a possibilite produzir sentido e desenvolver um projeto de vida que lhe proporcione realização pessoal com responsabilidade social. E, para que possamos conseguir algum êxito, também nós, Colégio e família, precisamos desenvolver as nossas...

Por isso, o Tema do Ano não tem como destinatários exclusivos os alunos, mas também os educadores: professores, famílias e o próprio Colégio. Cabe a cada um deixar-se interpelar e buscar articular suas respostas às questões postas. Está, portanto, novamente formulado esse convite.

Foram essas reflexões/preocupações educativas que nos levaram à escolha do Tema doAno para 2022: “O que queremos, o que podemos e o que fazemos com a nossa linguagem?”

Acreditamos que, embora sejamos atravessados por essas circunstâncias, não somos um mero reflexo delas. Transcendendo a qualquer determinismo, nossa aposta é no livre arbítrio e na possibilidade de que cada um possa discernir e responder pelas escolhas que viera fazer. As ações de cada um decorrem dos diagnósticos e da qualidade de leitura ampla de mundo que ele possa ter feito.

Acreditamos também que existe, em cada um de nós, uma singularidade que nos permite responder a esse mundo, modificando-o. Afinal, não é apenas o mundo que age sobre o Ser Humano, mas ele também age sobre o mundo: com sua capacidade de autoria, ele intervém e deixa sua marca.

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