Tema do Ano

O tema de cada ano letivo sempre gira em torno da Condição Humana. Mesmo que não seja claramente uma pergunta, o objetivo é convocar para uma autorreflexão e para uma reflexão coletiva todos os que constituem o Colégio Andrews: alunos, famílias, professores, demais colaboradores, equipe e direção.

A ideia é possibilitar diferentes portas de entrada e trajetórias pelas quais poderemos "visitar" diversos aspectos da Condição Humana e da vida em sociedade a partir dos valores, dos princípios e da concepção do ideal de ser humano descritos no Projeto Educativo do Andrews. Sua escolha é sempre fruto de reflexões, de leituras que vamos fazendo, do que experimentamos e do que vivemos como “falta” sob o ponto de vista educativo e não, estritamente, pedagógico. Por isso, revelam - ou até sugerem - atravessamentos com circunstâncias mais amplas, vividas em termos nacionais e mesmo globais.

Uma importante função da Educação é preparar as novas gerações para o futuro. Isso envolve uma missão civilizatória, pela qual uma geração mais velha elege determinados valores e conhecimentos acumulados, para transmiti-los, como um legado, aos mais jovens. É tarefa transgeracional, que nos antecede e ultrapassa a todos, como uma longa cadeia na qual desempenhamos provisoriamente o papel de elos, de formadores. Naturalmente não há determinismo pré-concebido: cada geração é livre para ser autora e escrever o capítulo que lhe cabe. Convém, portanto, formar as novas gerações para que no futuro assumam com protagonismo, independência, autoria e responsabilidade a condução dos rumos da sociedade. Não há apenas um futuro por ser construído: sempre existem vários, diferentes e possíveis futuros a serem sonhados, cogitados, negociados e coletivamente construídos. Para que as crianças e os jovens de hoje estejam à altura desse desafio, é importante que desde cedo desenvolvam uma acurada capacidade de leitura de mundo, no seu sentido mais amplo, para que saibam, a qualquer época, transformar informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria. Isso requer capacidade de discernimento e de tomada de decisão. O desenvolvimento dessas competências é uma importante intencionalidade que inspira nossa atuação como educadores: tanto do Colégio, quanto das famílias.

Mas se como educadores pretendemos preparar as novas gerações para o futuro, por outro lado, como cidadãos e como eleitores integramos a geração adulta, responsável também pelas condições nas quais legaremos aos mais jovens o mundo em que viverão: não apenas a sociedade - suas perspectivas e condições de vida - mas também em relação ao próprio planeta - seu equilíbrio e sua sustentabilidade. Por qualquer ângulo que se analise, do ponto de vista intergeracional, estamos, como adultos, implicados nesse legado. Quem educa deve também cuidar das perspectivas pelas quais o mundo em que vivemos será apresentado aos mais jovens: como essa realidade será descortinada para que lhes seja possível identificar superfícies, suportes e causas nas quais possam perceber sentido, engajar-se e investir, abrindo caminho para a sua inserção e construção de suas futuras identidades e projetos pessoais de vida. Para tanto, é preciso e é fundamental que nós, como educadores, atualizemos permanentemente nossa própria leitura de mundo e nossa atuação nele.

Considerando o caminhar da História ao longo dessa primeira década e meia do século XXI, tanto em termos nacionais quanto em termos globais, civilizatórios e planetários, a perspectiva que se descortina tem tons sombrios e aspectos preocupantes. A dimensão do desafio impõe que se façam alguns recortes. De uma forma bastante sintética, podemos dizer que o mundo atual, a sociedade em que vivemos está marcada por desesperança e imediatismo.

Para enfrentar essa realidade, não bastará às novas gerações apenas ter lucidez, coragem e capacidade de resistir às frustrações: mais do que nunca, será necessário que saibam ter esperança. É necessário que possam crer em algo, produzir novas utopias.

O mundo contemporâneo é descrito como fluido. Segundo o sociólogo Bauman, a solidez da época moderna diluiu-se na pós-modernidade e se liquefez. A inconstância, a instabilidade e a imprevisibilidade tornaram-se a tônica de nossas vidas. A permanente pressão por desempenho e produtividade foi promovendo a velocidade como um valor. A busca por eficácia foi entronizando a aceleração permanente e a instantaneidade à condição de critérios de qualidade. Tem mais qualidade e valor o que é rápido, ágil, veloz e instantâneo. Já não são tolerados processos que demandem tempo de amadurecimento. Qualquer tempo de espera é visto como morosidade inconveniente e como defeito a ser sanado. A expectativa que se cria é de satisfação instantânea.

As novas mídias vêm reforçar essa perspectiva. Atualmente já não bastam e-mails. Com o advento dos aparelhos celulares portáteis, passamos a estar todos permanentemente conectados.  O WhatsApp, apenas para citar um exemplo, é uma forma de comunicação ainda mais instantânea, traz com ele a expectativa de pronta resposta e acaba se transformando em controle. É como se qualquer demora passasse a ser inconveniente e impossível de ser aceita.

Na pós modernidade líquida, "tudo que é sólido se desmancha no ar", inclusive os referenciais e os ídolos. No campo da política, vê-se o ruir das utopias e das narrativas que inspiraram o século XX. Os grandes sistemas e as narrativas unitárias e totalitárias esfacelaram-se. Tanto em termos nacionais quanto internacionais os gestores públicos dão os piores exemplos e motivos para mais desilusões. As novas gerações já não têm modelos inspiradores a seguir. Não temos mais ilusões. Emergem polarizações e radicalizações enquanto os discursos assumidos pelos principais atores políticos banalizam o peso e a densidade das palavras. Por toda parte dissemina-se uma babel de narrativas que abusam das palavras e terminam por esvaziá-las de significado. Percebe-se, por um lado, que as palavras e os discursos proferidos deixam de ter sustentação. É como se as ações e os fatos não as sustentassem. A internet e as redes aceleram a disseminação de informações inconsistentes e não favorecem o discernimento nem uma leitura clara da realidade. Termos como "democracia", "república" e "justiça" são usados e abusados ao extremo. Como na "novilíngua" de George Orwell, as palavras adquirem múltiplos sentidos, tornam-se ambíguas e polissêmicas: podem significar simultaneamente uma coisa e o seu oposto. E esse foi nosso tema em 2016: ”Que importância damos, hoje, às palavras?”.

Por outro lado, percebe-se também que certas narrativas são construídas por “apagamentos", omissões ou ocultações que alteram e deturpam-lhes o sentido, distorcendo a verdade. Os fatos importam cada vez menos. À despeito das evidências, circulam versões e narrativas tão fantasiosas que já se fala em "pós-verdade”.

A imprevisibilidade torna remoto qualquer planejamento de longo prazo. Na ausência de utopias, vemo-nos quase que convocados a abrir mão da nossa capacidade de planejar e de sonhar. À medida em que aceleramos sob denso nevoeiro, a visibilidade adiante torna-se mínima. Corremos o risco de nos contentar com o médio e com o curto prazo. Já não fazem sentido renúncias e tendemos a buscar garantir o prazer instantâneo. Mergulhamos no imediatismo, sem capacidade de esperar, no duplo sentido, e sem tolerância à frustração.

É nesse contexto e sobre esse pano de fundo que educamos nossos filhos e nossos alunos. É para enfrentar esse mundo que os preparamos e é esse o mundo que temos a lhes oferecer e apresentar. No meio do caos atual e de tantas mentiras, em quem ou no quê acreditar?  Esperar de quem, o quê, para quê e como?

 

Alguns possíveis caminhos...

 

• Uma das chaves para o amadurecimento remete à forma como o sujeito lida com os limites, tanto no sentido restritivo do termo como também no quanto ele remete a obstáculos a serem superados.

Yves de La Taille explora bem essa ideia no livro “Limites: três dimensões educacionais” afirmando que o fortalecimento reside na capacidade da criança renunciar às satisfações imediatas. Abrindo mão da realização de desejos no curto prazo, aprende-se a suportar a espera e o vazio, a falta tão necessária para o surgimento do desejo. É necessário transformar o impulso e o desejo em vontade e em "força de vontade". Daí brota a determinação, mãe do empenho e do trabalho. Essa vivência remunera, pois pouco a pouco as crianças experimentam uma forma mais sofisticada de prazer: a gratificação que se colhe ao fim do trabalho. Ele decorre não apenas da obtenção do resultado final, mas também - e sobretudo - da fruição que vem do percurso, do processo, do próprio empenho e da dedicação.

Como diz Zeferino Rocha, " a esperança só se concebe enquanto sustenta o desejo de ir na direção de um objeto que não se tem e que se tivéssemos, extinguiria o próprio élan da esperança." (ver Anexo 4)

 

• O imediatismo e a aceleração permanente são improdutivos e adoecedores. Eles impedem que se faça uma leitura acurada de mundo e que se produza sentido. Diante desse avanço e desse risco, resta a quem educa desenvolver determinadas estratégias de resistência e de militância. Dentre elas, propor, ao invés da aceleração, oportunidades e circunstâncias para a lentificação de processos e de desenvolvimento da resiliência. Um tempo de espera e de introspecção é necessário para a escuta de si mesmo e do outro, para a leitura mais apurada do contexto e das sutilezas das relações. Esse pode ser um importante caminho para o autoconhecimento e para a autorregulação. 

• É um engano supor que a frustração sempre gera trauma. Não é produtiva nem eficaz a opção de analgesia, pela qual as crianças seriam poupadas de toda e qualquer frustração. Crescer implica alguma dor e sofrimento. Faz parte da vida. É temeridade diagnosticar qualquer entristecimento como se fosse sintoma de uma "depressão", a ser sanada com medicamentos. É leviano que, ao menor indício de tristeza, sejam prescritos medicamentos antidepressivos. Vários são os educadores contemporâneos que se colocam "em defesa de uma certa tristeza".

Zeferino Rocha (ver Anexo 4) discorre de forma muito interessante sobre os conceitos de luto e de melancolia, objeto de um importante texto de Freud. A elaboração do luto é o caminho necessário para que o sujeito possa construir-se um futuro.  Aqueles que perderam toda esperança ficam prisioneiros do desespero e da melancolia crônica e infindável. Por outro lado, os que alimentam esperanças encontram melhor suporte para o trabalho de elaboração do luto e para a sua superação. Para o autor, " a esperança é o que, em última análise, anima e impele a nossa alma peregrina, que constantemente nos faz ir adiante, impulsionando o nosso ser a caminhar pela simples alegria de caminhar e desbravar horizontes." Dessa forma, é indispensável que o sujeito desenvolva a capacidade de crer em alguma coisa: a esperança não é esperar, é caminhar.

  • A capacidade de sonhar e de crer em algo é indispensável para a esperança e para a própria estruturação da subjetividade humana. E essa elaboração supõe saber esperar e saber ter esperança.

Um outro psicanalista, Hélio Pelegrino, lembra que não somente a esperança é fruto de uma construção do sujeito (ver Anexo 5). Para ele, também a alegria é fruto de trabalho:

 

" Toda alegria longa e autêntica - é severa. O que não impede que a alegria seja leve e tenha gosto de vinho. Constrói-se a própria alegria como quem constrói um barco: com ferramentas difíceis. No começo, há o machado do lenhador, derrubando o tronco. Depois, a abrasão do relento e do sol sobre suas fibras, curtindo-as. Em seguida, o sal do suor, o ato de entalhar, de escavar, os dentes cravados no coração da madeira - sua serragem sangrando. Um barco se constrói devagar, com fiel austeridade. Os gestos precisos - navegar é preciso! - se sucedem, trabalhando a matéria , dia após dia. À noite se conversa, se ama ou se dorme - semeadura de possíveis. O dia é o tempo da construção do barco, sua forma emerge aos poucos, como uma asa que irrompe."

 

Em uma entrevista realizada no início de 2016 (ver Anexo 6), o sociólogo Bauman nos reconforta: diante do caos desse início de século, ele confessa o seu pessimismo no curto prazo, mas diz que a humanidade já enfrentou momentos piores e sempre soube sair bem deles. A História nos é favorável e nos autoriza a termos esperanças. Por essa razão, ele se declara otimista quanto ao longo prazo: a Humanidade vai "dar certo". Outros afirmam que o maior desafio da sociedade hipermoderna é fornecer instrumentos para que as pessoas tenham algum futuro e construam utopias.

 

Esse é o sentido do tema sobre o qual escolhemos refletir em 2017: “Saber esperar”. Como educadores, podemos tentar nos proporcionar, e fazer o mesmo com nossos filhos e nossos alunos, oportunidades para a lentificação de alguns processos. Na medida do que for possível, podemos também tentar exortarmo-nos e exortá-los a superar o imediatismo e fazer com que o desalento dê lugar à esperança. Apesar de tudo, importa que as novas gerações possam crer em algo: que saibam esperar e ter esperança. Esse é o ponto de partida e deve ser nossa meta.

Essas foram as primeiras reflexões sobre o tema de 2017 que nos ocorreram. Alguns textos para leituras complementares estão disponíveis em anexo. Esperamos que possam ajudar a aprofundar o que partilhamos aqui.

No Anexo 1, Luzia Alves de Carvalho aborda a condição histórica de transição e de desconforto do homem moderno, aprofunda o narcisismo exacerbado, fruto de uma sociedade igualmente narcísica, permissiva e hedonista e aponta para a utopia como busca do homem pelo sentido da vida.

No Anexo 2, Marisa Schargel Maia e Andrea Albuquerque refletem sobre a imbricação existente na sociedade contemporânea – marcada por uma cultura da imagem e que tem como valores predominantes a busca pela satisfação imediata e contínua – entre os meios de comunicação de massa e a formação da subjetividade.

No Anexo 3, Fabiane Manuchakian faz uma reflexão sobre como o uso da tecnologia expressa um tipo de imediatismo muito presente no nosso comportamento atual e de como essas novas formas de comunicação nos permitem pensar no “controle” das relações interpessoais.

No Anexo 4, Zeferino Rocha parte de uma abordagem filosófica da esperança, define seu papel e sua função na dinâmica da temporalidade humana para discutir as possíveis ressonâncias dessa visão filosófica sobre as questões dos ideais e o trabalho do luto e da melancolia.

O Anexo 5 é um capítulo o livro de Hélio Peregrino em que ele aborda a alegria como algo a ser construído e que implica, dentre outros aspectos, trabalho, paciência, perseverança e esperança.

O Anexo 6 é uma entrevista dada por Zygmunt Bauman em um programa de televisão. Nela o sociólogo retoma sua visão sobre a sociedade e o mundo atuais, o que testemunhou, e testemunha, e fala ainda sobre sua esperança no futuro da humanidade.

Como sempre, novas contribuições serão bem-vindas. Que esse tema possa ser, de fato, vivido por todos em 2017 e que nos ajude a aprender, e a ensinar a outros, a lidar melhor com os desafios a que esse nosso tempo nos convoca.

Mais uma vez, nosso obrigado pela parceria e confiança no Projeto Educativo do Andrews.

 

(Clique aqui para ler os Anexos)

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